Quais são os fósseis mais antigos da América do Sul? Depende. No caso do domínio dos procariontes, que reúne os reinos das bactérias e das arqueobactérias, a resposta correta seriam os estromatólitos, que são estruturas rochosas muito antigas formadas por microrganismos aquáticos reunidos em “tapetes” microbianos. Os estromatólitos sul-americanos mais antigos datam de mais de 2 bilhões de anos, como os que afloram na Formação Fecho do Funil, no Quadrilátero Ferrífero, no Centro-Sul de Minas Gerias.
(foto: Tecamebas/Limeta lagenisformis)No domínio dos eucariontes – do qual fazem parte plantas, fungos, animais (vertebrados e invertebrados) e todos os microrganismos unicelulares com núcleo e organelas (protozoários e microalgas) – os fósseis mais antigos do continente são carapaças orgânicas microscópicas em forma de vaso, chamadas tecas.

No interior das tecas viviam protozoários ameboides, conhecidos como tecamebas ou amebas tecadas. Em algum período entre 889 e 587 milhões de anos, esses seres habitaram os mares tépidos e rasos que cobriam a região onde é hoje o Mato Grosso do Sul. Nenhum outro protozoário achado na América do Sul é mais antigo.

Um artigo com a descrição de microfósseis de cinco espécies de tecamebas, três delas novas para a ciência, foi publicado no Journal of Paleontology.

O artigo resulta do doutoramento da paleontóloga Luana Morais e leva as assinaturas de seu orientador, o geólogo Thomas Rich Fairchild, do Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP), do biólogo Daniel Lahr, do Instituto de Biociências da USP, e de colegas do Brasil e dos Estados Unidos, entre eles J. William Schopf, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), um dos mais eminentes pesquisadores da origem da vida. O trabalho contou com apoio da FAPESP.

Os fósseis de tecamebas foram achados em Morraria do Rabicho, uma península fluvial no rio Paraguai, na qual se chega de barco, partindo do cais de Corumbá, 40 quilômetros rio acima. Os microfósseis foram encontrados em seixos próximo à base do Grupo Jacadigo, da era Neoproterozoica, anterior ao surgimento dos primeiros animais e quando a vida ainda estava confinada aos mares, pois os continentes eram desertos e sem vida.

A história da descoberta dos microfósseis teve início há 40 anos, quando Fairchild veio trabalhar como professor visitante no IGc-USP, com apoio da FAPESP.

“Vim para a USP em 1976. No ano seguinte, um colega me passou amostras da Formação Urucum de Mato Grosso do Sul. Descobri neles pequenos fósseis que eram muito parecidos com outros, dos Estados Unidos, que havia visto durante o meu doutorado na UCLA. Daí que, em 1979, fui coletar amostras no Mato Grosso do Sul”, disse.

Fairchild identificou microfósseis, possivelmente de protozoários, que tinham o formato de esferas, elipses e vasos, com tamanhos que mediam até 120 micrômetros (pouco mais de um décimo de milímetro). Na ocasião, Fairchild não chegou a descrever as espécies.

Em 2014, o cientista retornou a Morraria do Rabicho para coletar material, acompanhado por Morais. De volta a São Paulo, e com o auxílio de novas tecnologias de imagem, as amostras recém-coletadas revelaram uma diversidade de microfósseis até então desconhecida.

“Os fósseis são muito pequenos, menores que 200 micrômetros (0,2 milímetro). Não dá para visualizá-los a olho nu, só no microscópio. Em seu estudo de 1978, o professor Fairchild não diferenciou morfologicamente os vasos das tecamebas. Com os recursos de imagem atuais, conseguimos distinguir cinco morfologias diferentes. Duas delas pertencem a espécies já descritas, mas três são espécies novas”, disse Morais.

Bem conservados

Segundo Morais, as tecamebas do Mato Grosso do Sul fazem parte de um antigo grupo de protozoários em forma de vasos achado em quase todos os continentes.

A ocorrência no Brasil é a única na América do Sul até o momento. Os microfósseis são particularmente assemelhados a outros encontrados em rochas no Canadá, Estados Unidos e Noruega, com idades entre 811 milhões e 635 milhões de anos.

“Ainda não temos a idade estabelecida das tecamebas de Morraria do Rabicho. A datação está sendo feita. Por enquanto, o que se sabe é que teriam entre 889 e 587 milhões de anos”, disse Morais.

Quem explica a razão desta estimativa é Fairchild. “As tecamebas que encontramos estavam originalmente dentro de pedrinhas e cascalhos. Esses, por sua vez, haviam sido depositados nos sedimentos que viriam a formar as rochas do Grupo Jacadigo. Isso quer dizer que os cascalhos com tecamebas eram o produto da erosão de rochas mais antigas do que as rochas do grupo Jacadigo.”

As rochas do Jacadigo foram depositadas sobre rochas com idade de 889 milhões de anos e sofreram metamorfismo brando há 587 milhões de anos. “Portanto, os cascalhos com as tecamebas devem, necessariamente, ter idade maior que 587 milhões e foram depositados depois de 889 milhões de anos”, segundo Fairchild.

De acordo com Morais, as tecamebas do Mato Grosso do Sul se mostram mais bem conservadas do que similares da América do Norte, muito embora lá a diversidade seja maior.

“Conseguimos ver a preservação orgânica das paredes. Não se encontra material assim em outros locais. Geralmente o que se preserva são moldes e réplicas das tecas, pois a teca original acabou desaparecendo. Aqui, as tecas foram excepcionalmente preservadas”, disse.

O estado de conservação é tal que, a partir do uso de aparelhos de imagem sofisticados no laboratório de Schopf, em Los Angeles, foi possível determinar não apenas a estrutura tridimensional das tecas, mas também a presença de sílica na parede de algumas delas.

“A descoberta sugere que nesse grupo de eucariontes unicelulares já haviam espécies capazes de reforçar suas paredes com compostos não orgânicos, uma habilidade que muitos milhões de anos mais tarde permitiria a irradiação de organismos com conchas, na chamada ‘Explosão Cambriana’”, disse Fairchild.

Como eram as tecamebas em seu interior? “As tecas de Mato Grosso do Sul se assemelham às tecamebas viventes, daí inferirmos que se tratava de um grupo próximo. As tecamebas viventes passam a vida dentro de suas tecas, que elas próprias formam. Antes da divisão celular, a ameba produz uma nova teca para receber o novo organismo. Não conseguem sobreviver fora delas”, explicou Morais.

Segundo Fairchild, as antigas tecamebas eram protozoários predadores que se alimentavam delas mesmas e de outras formas mais simples de vida unicelular, como bactérias. “As tecamebas eram os predadores de topo daquele ecossistema microscópico dos mares do Neoproterozoico brasileiro”, disse.

Com a evolução dos primeiros animais, a chamada fauna de Ediacara, que surgiu entre 635 e 541 milhões de anos atrás, novos predadores macroscópicos dominaram os mares e deslocaram as tecamebas tanto de seu posto de predador dominante, como do seu habitat marinho para continental, o que fez com que seu registro começasse a declinar para praticamente desaparecer do registro fóssil há 500 milhões de anos.

O artigo Carbonaceous and siliceous Neoproterozoic vase-shaped microfossils (Urucum Formation, Brazil) and the question of early protistan biomineralization (doi: http://dx.doi.org/10.1017/jpa.2017.16), de Luana Morais, Thomas Rich Fairchild, Daniel J.G. Lahr, Isaac D. Rudnitzki, J. William Schopf, Amanda K. Garcia, Anatoliy B. Kudryavtsev e Guilherme R. Romero, pode ser lido em: http://www.bioone.org/doi/abs/10.1017/jpa.2017.16.

Agência FAPESP
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