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DNAA compreensão das bases genéticas e moleculares que determinam o processo de carcinogênese, a formação do câncer, pode levar ao desenvolvimento de novas práticas terapêuticas mais precisas, contemplando características específicas de cada tumor e de como cada organismo reage à doença. No último dia da FAPESP Week Barcelona, realizada pela FAPESP em parceria com os Centres de Recerca de Catalunya (Cerca) nos dia 28 e 29 de maio, em Barcelona, foram compartilhadas pesquisas em genômica e biologia molecular que têm possibilitado o desenvolvimento dessa abordagem “personalizada” e reforçado o combate à doença.

De acordo com Anamaria Aranha Camargo, do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês, a genômica permite a personalização da abordagem contra a doença por meio do conhecimento das alterações genéticas do tumor, que podem indicar o que vai funcionar ou não para cada caso.

“Cada tumor é diferente, mesmo entre tumores de um mesmo tipo. Até pouco tempo, todos eram tratados da mesma forma e, enquanto o tratamento obtinha sucesso em alguns casos, em outros, fracassava. Então, uma nova abordagem era iniciada, podendo ou não ser efetiva, num processo praticamente empírico: primeiro se tentava o tratamento dispensado à maioria dos pacientes e, depois, aqueles que não respondiam adequadamente à abordagem inicial eram tratados de uma outra forma”, disse.

Com as tecnologias de análise molecular, é possível identificar previamente abordagens mais adequadas a cada caso, numa espécie de oncologia personalizada.

“Hoje em dia a técnica mais utilizada para isso é o sequenciamento de segunda geração, sequenciando o transcriptoma ou o genoma do tumor inteiro de cada paciente – que tem alterações próprias. Com essas informações sobre o comportamento típico daquele tumor em específico, pode-se usar uma droga mais bem direcionada, por exemplo”, explicou.

Pesquisa translacional

O objetivo, disse Camargo, é fazer com que esse conhecimento seja revertido em benefício para o paciente, especialmente aqueles que respondem bem ao tratamento, mas voltam a desenvolver a doença até mesmo anos depois.

“Nesses casos, o tumor adquire mutações que o tornam resistente. Assim como ocorre com as bactérias e os antibióticos, as células tumorais podem ficar resistentes às drogas utilizadas na oncologia. As pesquisas buscam olhar para o paciente que sofre com essa resistência ao tratamento para entender que processos moleculares levaram a isso”, disse.

Metástase

O grupo de Anamaria Aranha Camargo vem estudando há mais de 10 anos o gene Adam23, uma molécula de superfície que os pesquisadores perceberam ser desligada na célula tumoral, tornando-a muito mais metastática - capaz de formar mais metástase e invadir os tecidos. O objetivo é desenvolver uma abordagem que impeça essa sinalização que o silenciamento do gene, supressor de metástase, causa.

“Trata-se de biologia básica, mas que, em alguns anos, quando esse mecanismo for melhor conhecido, pode levar ao desenvolvimento de uma droga que bloqueie esse mecanismo – não só em tumor de mama, que é um dos nossos focos, mas também em melanomas e glioblastomas, tumores do sistema nervoso central.”

Os pesquisadores também têm avançado na compreensão do câncer de reto, um dos mais comuns no Brasil. O grupo comparou pacientes que responderam bem ao tratamento a casos em que a quimioterapia não surtiu efeito, identificando 27 genes com padrões de expressão diferentes.

“A ideia é tentar predizer se o paciente que chega ao hospital vai responder adequadamente ao tratamento quimioterápico ou radioterápico e, nos casos de resposta inadequada, ‘pular’ essa abordagem e encaminhar para cirurgia, evitando todo o desgaste físico, emocional e financeiro desnecessário”, contou.

Transformações celulares

Para Camargo, a interação com pesquisadores da Catalunha durante a FAPESP Week Barcelona pode levar a colaborações para acelerar as pesquisas no Brasil. “O grupo aqui está na fronteira da genômica, desenvolvendo metodologias que poderão ser utilizadas em outras partes do mundo em alguns anos”, disse.

No Institut de Recerca Biomèdica (IRB) de Barcelona, pesquisadores de diversas áreas trabalham, entre outras abordagens, com modelagem em moscas para entender as transformações celulares que levam ao desenvolvimento e à metástase do câncer de cólon, um dos tipos de câncer mais incidentes no mundo, que abrange tumores que acometem um segmento do intestino grosso e o reto.

De acordo com Joan Guinovart, diretor do IRB, a instituição conseguiu desenvolver a doença em Drosophila melanogaster como alternativa aos modelos de camundongos, cujo processo de pesquisa é mais demorado e dispendioso.

“Esse modelo nos permitiu identificar interações sutis no desenvolvimento de câncer que são praticamente impossíveis de detectar em outros modelos, como os ratos, com a tecnologia disponível”, disse.

Graças à facilidade com que os estudos genéticos podem ser realizados no modelo, foi possível avaliar o efeito de 250 genes que são alterados no câncer de cólon, constatando que 30% deles têm impacto na doença.

Os pesquisadores pretendem agora utilizar o modelo para estudar moléculas de novos alvos terapêuticos, um passo intermediário entre a fase de testes in vitro e em vertebrados.

Agência FAPESP