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Notícias do Campus
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Um longo deslocamento entre Alta Floresta (812km ao norte de Cuiabá) e Cotriguaçu, no sábado (18), marcou o início da terceira e última semana da viagem que um grupo de quarenta professores e estudantes franceses e brasileiros realiza pela região amazônica do Mato Grosso. O roteiro de estudos e trabalhos de campo integra a programação oficial do Ano da França no Brasil.
Os dias passados em Alta Floresta foram particularmente marcantes para o grupo. Brasileiros e franceses dividiram o período de 13 a 18 de julho entre o Floresta Amazônica Hotel, na sede do município, e o Cristalino Jungle Lodge, um hotel localizado numa Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) vizinha ao Parque Estadual do Cristalino. A proprietária do hotel, dona Vitória da Riva Carvalho, é filha do fundador da cidade, Ariosto da Riva.

O projeto inicial de Da Riva, na década de 1970, era privilegiar a colonização voltada aos médios e pequenos proprietários, com foco na produção de frutos nativos, como guaraná e cacau. Era um empreendimento privado que visava ainda investir na educação dos migrantes e na criação de raízes destes com sua nova terra. 

Entretanto, a chegada do garimpo, cujo forte se deu nos anos 80, atropelou os planos do fundador e transformou a região. Alta Floresta, que hoje possui cerca de 50 mil habitantes, teve mais de 100 mil no auge da exploração do ouro. Seu aeroporto registrava um movimento incessante, acumulando uma quantidade de voos quase tão impressionante quanto a frequência com que fortunas aterrissavam nas mãos de garimpeiros e aventureiros – e delas decolavam na mesma velocidade.

Preservação
Com o fim do ciclo do garimpo, a população diminuiu (o Censo de 1991 apontou 66 mil habitantes) e a cidade voltou a procurar suas vocações na agricultura, na pecuária e no ecoturismo.

A avidez da exploração nas áreas de garimpo trouxe prejuízos ambientais seriíssimos. A recuperação e a preservação encontram em pessoas como dona Vitória não apenas esperança, mas também ação. A filha do fundador preside a Fundação Ecológica Cristalino, dedicada a promover a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais na fronteira agrícola da Amazônia.

No Cristalino Jungle Lodge, os visitantes realizam atividades de educação ambiental, fazem trilhas diurnas e noturnas pela floresta fechada e assistem ao nascer do sol do alto de uma torre de 50 metros de altura que permite observar o movimento dos animais na copa de imensas árvores como figueiras e castanheiras – ou mesmo acima delas, como os majestosos voos das araras vermelhas. Também ouvem e sentem a vida pulsar de forma intensa em todos os centímetros quadrados de floresta em pé.

Nadar calmamente no rio Cristalino, mesmo ao lado de piranhas e jacarés, e embasbacar-se com a imensidão de estrelas de um céu envolvente como um manto sagrado, reverenciando a vida em todas as suas manifestações – como ensinava Albert Schweitzer –, são algumas das experiências que deixaram em êxtase franceses e brasileiros que tiveram o privilégio de experimentar os três dias e duas noites reservados ao hotel no meio da floresta.

Transformações
Foi mesmo um bálsamo necessário depois que a expedição experimentou visões de destruição, desmatamento, queimadas e burlas diversas à legislação, em meio às disputas políticas e territoriais de um estado ainda em formação. 

A viagem de estudos está conhecendo in loco as dinâmicas agrícolas e as questões envolvendo conservação ambiental e biodiversidade no Mato Grosso. O estado foi escolhido porque é a região brasileira em que vêm ocorrendo as maiores transformações nos modos de ocupação e utilização do solo, associadas a mudanças demográficas que acompanham o avanço da frente pioneira.

Entre os dias 5 e 12, o grupo passou por Rondonópolis, Chapada dos Guimarães, Sorriso, Feliz Natal e Sinop. No roteiro, conheceu as áreas da grande produção mecanizada, especialmente da soja; a frente pioneira antiga – caracterizada pela exploração madeireira –; projetos de preservação e recuperação ambiental; alternativas da pequena produção e os processos de ocupação urbana, entre outros cenários, além de participar de simpósios com a presença de professores de universidades mato-grossenses.

Nas propriedades, nas sedes dos municípios, em empresas e entidades de classe, o grupo teve a oportunidade de encontrar representantes de várias classes – produtores, trabalhadores, políticos, líderes empresariais e de outros setores – para debater, fazer entrevistas e confrontar dados e visões.

A viagem segue até o dia 25, quando se dará o retorno a São Paulo. Até lá, o grupo passará ainda por Juína, Tangará da Serra e pelo Pantanal. Nos dias 26 e 27, um seminário de encerramento em Ubatuba vai proporcionar a avaliação da viagem. No total, serão percorridos cerca de sete mil quilômetros. Todos os deslocamentos estão sendo feitos num ônibus alugado para a expedição. Os visitantes estrangeiros embarcam de volta à França no dia 28. 

Convênio
A Missão Interuniversitária Franco-Brasileira é a primeira atividade de um convênio de cinco anos firmado entre a USP e a Universidade de Rennes 2. O projeto trouxe ao país um grupo de três professores e dezoito alunos de graduação e pós-graduação em Geografia de Rennes. Antes de tomar o rumo do norte, eles participaram, já ao lado dos brasileiros, de atividades iniciais do projeto no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, e no campus da USP Leste.

Pela USP, são dezesseis alunos de graduação e pós-graduação do curso de gestão ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e de Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC). Também são três os professores pelo lado brasileiro. A coordenação na USP cabe à professora Neli Aparecida de Mello, que fez pós-graduação na França e já lecionou como docente visitante na universidade parceira. 

O projeto tem uma página na internet. Dois blogs também trazem impressões e comentários da viagem. Os alunos franceses escrevem em www.aubresil.org, enquanto os brasileiros abastecem o www.amazonia each.blogspot.com. O Jornal da USP acompanha parte da viagem e publicará reportagens especiais a respeito.

(Paulo Hebmüller, do Jornal da USP)