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Made in China: porque a pirataria ganhou o mundoUniversidade de Brasília - O sucesso das marcas famosas é um dos principais combustíveis da pirataria. A popularidade dos produtos "made in China" se vale do desejo que as marcas de luxo despertam nos consumidores. Professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, Gustavo Lins Ribeiro, apresentou pesquisa em que detalha como a pirataria se beneficia do alto custo da economia formal.
A partir de análise antropológica, Ribeiro demonstrou dados históricos sobre o mercado das feiras e dos camelôs. Segundo ele, o comércio popular ilegal não só se apropria do valor simbólico embutido em nomes de grandes marcas, como muitas vezes utiliza de seus espaços industriais para produzir mercadorias.
 
Para se ter idéia, algumas fábricas na China - considerada o coração do sistema mundial da pirataria - produzem durante o dia produtos para grandes grifes internacionais e à noite para o mercado informal. “Só que sem a etiqueta da marca. E vende dez vezes mais barato”, disse Ribeiro.
O mercado oficial serve de teste para o comércio ilícito, afirmou o professor. Esse inclusive é outro ponto de encontro entre as duas formas de comercialização. “Eles vão à loja, compram o modelo original que mais vende para então copiar”, disse.
 
ANÁLISE - Ribeiro utilizou o termo Globalização popular e o sistema mundial não-hegemônico para designar a rede comercial de feiras e camelôs que vendem as bugigangas globais.“O hegemônico, que é o do mercado formal está ali, é naturalizado. O não-hegemônico é o que sempre tem de se explicar porque é objeto da ação do Estado contra ele”, explicou Ribeiro.
O sistema não-hegemônico ou o comércio pirata está amparado no alto custo do mercado luxuoso e no que Ribeiro chama de “economia da distinção”. Os consumidores que acreditam diferenciar-se de outros pelas marcas luxuosas pagam extra pela logomarca. “No mercado de luxo você tem a soma adicional porque as marcas precisam fazer desfiles, construírem lojas fantásticas em lugares caros”, acrescentou.
 
“As mercadorias piratas são os ilícitos do andar de baixo porque são do povão”, comentou o professor do Instituto de Ciência Política da UnB, Antônio Brussi. Ele considera o comércio ilegal uma tendência do capitalismo e sua proliferação se deve à incapacidade dos países periféricos de coibirem a prática. “A pirataria não aumenta o consumo da Gucci, mas aumenta o âmbito dos ocupantes na periferia”, disse Brussi.
 
 HISTÓRIA DO MERCADO INFORMAL
- O centro do sistema não-hegemônico está na Ásia, em especial na China. Singapura, Coréia e Tailândia são outras importantes veias que alimentam a rede. São lugares dinâmicos de produção e capacidade de compra de mercadorias;

- A província de Guandog, no sul China, concentra alguns dos principais centros do sistema mundial pirata;

- De 1547 a 1841, a região foi o único ponto comercial entre o império oriental e o ocidente. Os comerciantes chineses faziam cópias de artigos orientais para vender no mundo ocidental e também copiavam produtos de caráter ocidental para vender no oriente; 

- A partir do século 19, Macau passa a concentrar todas as transações comerciais entre ocidente e oriente e também especializa-se em grande centro de cópias;

- Shenzhen, cidade ao norte de Hong Kong, é o coração do centro do sistema da globalização popular. Lá, centenas de fábricas produzem mercadorias que vão parar na Feira dos Importados, em Brasília, e em outras grandes feiras brasileiras e mundiais, como a Feira da 25 de Março e a Galeria Page, em São Paulo, Feira de Caruaru, em Pernambuco, San Andresito, na Colômbia, e Tepito, na Cidade do México. 

- Chungking Mansions, na China, é o maior edifício da globalização popular no mundo. 

- Em todo o mundo, a estética das feiras é praticamente a mesma. Basta visualizar as bancas da Feira dos Importados, em Brasília, com as de Chungking Mansions, na China e as da Galeria Pagé, em São Paulo para identificar a semelhança.

UnB Agência