 A realização do Exame Nacional de Desempenho do Estudante neste domingo, 8 de novembro, foi marcada pela desorganização. Em jornais de todo o país e na internet, circulam inúmeras reclamações de candidatos que compareceram ao exame. Informações incorretas de endereço ou nos nomes das escolas deixaram diferentes candidatos de fora em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Petrolina (PE). Além disso, estudantes denunciaram falhas na segurança do processo.
Alunos da Universidade de Brasília que participaram do Enade contaram que os fiscais não se preocuparam em exigir documento de identidade de alguns, deixaram de recolher assinaturas na lista de presença e no cartão de respostas e não controlaram a saída dos candidatos dos locais de provas. No começo dos testes, os estudantes foram avisados que não poderiam se retirar do local antes de 30 minutos após o início da avaliação e que só poderiam levar o caderno de provas depois de três horas. Mas Jairo Faria, de 22 anos, por exemplo, não obedeceu nenhuma das recomendações. E não foi advertido. O estudante do 8º semestre de Jornalismo antecipou a volta de uma viagem exclusivamente para participar do Enade. Só foi avisado do exame há duas semanas. Apesar do aborrecimento, decidiu voltar e fazer a avaliação com seriedade. Porém, sua frustração só aumentou com a desorganização que presenciou no Centro de Ensino Fundamental 7, na 912 Norte. REVOLTA - Ele conta que não pediram sua identidade na porta da sala. Depois, ele mesmo avisou que estava com celular e perguntou se deveria desligá-lo. Quando distribuíram os cartões de respostas, pediram para que os documentos de identificação ficassem em cima da mesa para checagem, o que também não ocorreu. “Aí, abri a prova e vi que as perguntas eram planfletárias do governo. Fiquei revoltado. Em 15 minutos entreguei o cartão de respostas e me deixaram sair. Só percebi que estava com o caderno de perguntas lá fora e ninguém falou nada”, conta Jairo. Indignado, o estudante entregou a prova a integrantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UnB, que faziam campanha em prol do boicote ao Enade na porta da escola. Os integrantes do DCE pediam em um megafone que os candidatos abandonassem o local porque não concordam com a avaliação do Ministério da Educação. Com a prova em mãos, eles denunciaram a falta de organização no megafone e leram a prova. Em alguns momentos, deram as respostas para as questões objetivas. “Acho a avaliação importante e por isso queria fazê-la seriamente. Mas dessa maneira não há como contribuir”, protesta Jairo. A prova foi feita e aplicada pela empresa Consulplan, de Minas Gerais. CONTEÚDO RUIM – Alunos criticaram também o teor das questões das provas. Renato Oliveira, 22 anos, aluno do 3º semestre de Jornalismo, conta que se impressionou com o teor das perguntas. Ele diz que muitos itens não diziam respeito ao Jornalismo. “Nas entrelinhas, podíamos perceber intenções políticas. Muitas perguntas avaliavam o quanto sabíamos sobre o governo”, emendou outro aluno da comunicação, Marcus Lacerda, 27 anos. Marcus decidiu responder todas as questões. Para ele, o boicote não faz sentido. “Acho que, na verdade, a avaliação deveria ser anual, para termos noção do quanto estamos evoluindo no processo”, defende. Estudante de Direito, Guilherme Moraes-Rego, 24 anos, acredita que a prova não é capaz de avaliar o ensino jurídico. “Algumas questões falavam do próprio MEC, outras eram bem elaboradas e outras não. Se fosse feita com mais esmero, acho que seria possível fazer uma boa avaliação, porque a maioria das leis que estudamos são federais e as teorias são as mesmas em qualquer lugar do país”, afirma. Guilherme fez a avaliação no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, na 908 Sul. Segundo ele, não houve problemas sérios de organização, mas admite que percebeu mais tolerância dos fiscais com os candidatos. Ele, por exemplo, pediu ajuda a uma colega, mais de uma vez, para saber as horas. “Acho que os fiscais não estavam tão exigentes porque não valia uma vaga em concurso ou na universidade”, pondera. As provas e os gabaritos preliminares do Enade estão disponíveis no portal do Inep. A coordenadora da graduação da Faculdade de Direito da UnB, Suzana Viegas, analisou as questões e também não considerou a prova capaz de avaliar o que se aprende no curso. Ela reconhece que alguns temas da atualidade e de conhecimentos gerais são interessantes, mas acredita que outros mecanismos deveriam ser incorporados à avaliação. “Como a análise dos próprios professores. Isso deveria ser levado em consideração. Poderia ser mais profunda também, achei um pouco superficial. Houve melhora desde o Provão, mas sozinha ela ainda não reflete o ensino”, argumenta. Em nota oficial, o presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, considerou a aplicação das provas “tranquilas”. O exame foi aplicado a 1,1 milhão de estudantes em 997 cidades brasileiras. Segundo ele, apenas um caso de reclamação foi registrado pelo plantão do Inep, de que algum aluno teria saído com a prova antes do horário previsto. "Esse episódio não gera nenhum prejuízo para o resultado do exame", garante. Ele garantiu ainda que os candidatos que receberam endereços errados das escolas não serão prejudicados e “receberão atestados de dispensa”. Este ano, o Enade foi aplicado a estudantes ingressantes e concluintes das áreas de Administração, Arquivologia, Biblioteconomia, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, Comunicação Social, Design, Direito, Estatística, Música, Psicologia, Relações Internacionais, Secretariado Executivo, Teatro e Turismo e dos cursos superiores de tecnologia em Design de Moda, Gastronomia, Gestão de Recursos Humanos, Gestão de Turismo, Gestão Financeira, Marketing e Processos Gerenciais. BOICOTE – Durante a semana, o DCE se reuniu com inúmeros estudantes para conversar sobre o Enade. Discutiram a necessidade da avaliação e os moldes em que é feita hoje. Com lideranças estudantis, eles decidiram promover o boicote. A justificativa por ser lida no site do diretório www.dce.unb.br. Os estudantes discordam do peso dado à nota do estudante na avaliação de um curso. “O Sinaes possui avanços em relação ao Provão, que avaliava exclusivamente o aluno. Mas a prova do Enade não avalia o principal tripé da universidade: o ensino, a pesquisa e a extensão. Concentra-se só no ensino”, comenta Raul Cardoso, diretor do DCE. Ele critica a falta de avaliação das habilidades e competências aprendidas fora da sala de aula. Para o DCE, outro ponto condenável do Enade é a elaboração de rankings feita com as notas das universidades. “Ele estimula a competição mesquinha. As universidades se aproveitam dos resultados para vender um serviço que não é mercadoria, a educação”, analisa. Para ele, a sociedade precisa de um modelo de avaliação da qualidade do ensino superior mais aprofundado. Este ano, a União Nacional dos Estudantes decidiu não promover campanhas de boicote ao exame, como tradicionalmente fazia. Para Raul, é uma pena que a entidade não tenha se engajado nesse movimento. “É uma pauta importante, mas a UNE está afastada da nossa realidade”, critica. Até o fim do ano, os estudantes pretendem organizar um grande debate para discutir um novo modelo de avaliação do ensino superior. A decana de graduação, Márcia Abrahão, lembra que a UnB não estimula ou desencoraja os estudantes a participar do exame. “O boicote até pode comprometer a avaliação de algum curso, mas essa é uma decisão autônoma dos estudantes e nós respeitamos a decisão deles”, garante. Priscilla Borges - Da Secretaria de Comunicação da UnB UnB Agência
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