Publicando artigos em que pesquisadores expõem seus trabalhos, métodos e resultados, os periódicos científicos estão inseridos nesta dinâmica. E muitas unidades da USP - pólos da ciência nacional - mantêm suas próprias revistas, tanto para divulgar a produção interna, quanto para receber contribuições de outras universidades.
Os ingredientes (para uma boa publicação e um bom artigo)
Foco é uma qualidade é fundamental para uma revista científica, na opinião do professor Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, editor-chefe da Scientia Agricola, publicação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). “Uma revista sem foco fica complicada demais para o público leigo e simples demais para o público especializado”, afirma. No caso da revista que Alleoni coordena, a receita tem dado certo: Scientia foi considerada, em 2007, a mais impactante na área de ciência agrária dentre as presentes na base de dados Web of Science, uma das mais importantes do mundo científico.

A Scientia Agricola tem vida longa: desde 1944, mas com o nome de Anais da Esalq. Com o passar do tempo, sua linha editorial também foi mudando, se tornando mais abrangente. De textos exclusivamente feitos na Escola, agora a revista publica a maioria de seus artigos (entre 75% e 80%) de fora da USP. Para Alleolli, essa variedade contribui para a crediblidade de uma publicação. “Um outro atributo de qualidade de uma revista é ela não ser ‘caseira’”. Seguindo o mesmo raciocínio, a comissão editorial da revista, que faz a primeira triagem do que será publicado, também é híbrida, contando com pesquisadores de países diversos.
Após essa primeira avaliação, os trabalhos seguem para pareceristas “bem rigorosos”. Esse rigor se deve à grande procura que a revista tem para a publicação de artigos, em razão do prestígio obtido com os índices do Web of Science, e também porque é grande hoje a cobrança no meio acadêmico para que todos os pesquisadores publiquem artigos.
No caso de Scientia, cerca de metade dos trabalhos que vão parar nas mãos dos pareceristas não são aprovados. Para ser aceito, o trabalho precisa ser “mais abrangente, menos localizado”, e trazer alguma novidade. “Vários artigos não são aceitos não porque são mal feitos, mas porque não agregam conhecimento. Queremos algo que não seja uma repetição de algo que já foi feito”, explica o professor.
Suor, revolta e resultado

“A gente sonha com a revista, dorme com a revista, respira a revista”, afirma a editora científica da Revista da Escola de Enfermagem da USP, Maria Júlia Paes da Silva. “É um trabalho que não tem fim”, desabafa. “Para mim, que sou docente, é quase uma loucura”, afirma a professora que, além de cuidar do periódico, leciona na EE, supervisiona estágios e atua como pesquisadora.
Trimestral, a publicação traz 40% dos artigos científicos de autoria de alunos de graduação, pós-graduação e docentes da EE e 60% de trabalhos feitos fora da USP. A editora considera essa iniciativa um “trabalho social”, pois, muitas vezes, instituições de outros estados não têm seus trabalhos divulgados.
Como em Scientia, todos os artigos da Revista passam por pareceristas, que são doutorados e especialistas nas áreas abordadas. E grande parte das vezes, o trabalho volta para o autor, pois precisa atender a uma série de critérios. Maria Júlia considera isso um “trabalho pedagógico”. No entanto, alguns pesquisadores se revoltam com a rejeição de seu artigo. “Meu anjo da guarda deve ser forte”, brinca. “Muitas pessoas não entendem que tudo é feito com a maior neutralidade possível”.
Mas, apesar do “suor” e dos percalços, a editora sabe que o trabalho de manter um periódico científico vale muito a pena: dá maior visibilidade não só à unidade em que é feito, como também à área de pesquisa que aborda - no caso, a enfermagem.

Periódico também é extensão
Há alguma diferença entre um periódico ligado a um museu e os das unidades convencionais de ensino e pesquisa? Para Paulo César Garcez Marins, editor de Anais do Museu Paulista, sim. Apesar de todas as unidades da Universidade estarem de alguma forma embasadas no tripé pesquisa-ensino-extensão, nos museus a parte de extensão, ou seja, o que é voltado diretamente para a sociedade, tem ainda mais destaque. E isso se reflete na revista. “Na sessão ‘Museus’, por exemplo, muitos artigos descrevem experiências práticas e trajetórias destas instituições, que são por natureza voltadas a um público mais amplo”, conta.
Com a tarja de mais antiga revista científica de uma unidade da USP (criada em 1922), a Anais tem história. E também fala de história, mas de um ponto de vista particular. “A nossa proposta atual, que acompanhou as transformações no papel do próprio Museu ao longo do tempo, é a de divulgar trabalhos científicos que tenham como tema as relações entre história e cultura material”. E as “expressões materiais da cultura” podem incluir desde artefatos, objetos do cotidiano, e obras de arte até “objetos” num sentido mais amplo, como uma fazenda ou uma cidade.
Como seria de se esperar, a interdisciplinaridade de Anais também é característica marcante, publicando contribuições de museólogos, historiadores, historiadores da arte, arquitetos, restauradores e conservadores. O periódico recebe artigos em fluxo contínuo, durante todo o ano, sejam avulsos, sejam dossiês. Um dos destaques é a sessão “Debates”, em que o texto de um pesquisador é comentado por outros, e o autor tem, na mesma edição, a oportunidade de réplica.
A seleção dos textos segue os padrões costumeiros dos periódicos científicos: os trabalhos passam por uma comissão interna de publicação e também por um conselho ad hoc (externo). Anais já está indexada em bases online nacionais e também internacionais. Na opinião de Paulo César, a indexação online dá a um periódico muitos ganhos em repercussão e circulação.
O editor também ressalta o fato de Anais estar entre as três únicas revistas no país que abordam cultura material a serem publicadas regularmente – sendo que as outras duas, Anais do Museu Histórico Nacional e Musas (do Ministério da Cultura), não são diretamente ligadas a uma universidade.
Por esse, entre outros motivos, ele enfatiza o respeito com que a equipe da revista encara o trabalho que realiza, afinal, “manter a cada número a qualidade de um periódico tão antigo e importante como este é uma grande responsabilidade.”
Assessoria de Imprensa da USP
Luiza Caires e Saulo Yassuda / USP Online



