Universidade Estadual de Campinas - Seu nome é uma homenagem a Santo Ignácio de Loyola, mas ele é um tremendo gozador. Justifica seus modos dizendo que a imaginação é maior que ele. E ter saído de Araraquara coincidiu com a sua decolagem na vida profissional, atuando depois como jornalista, cronista e escritor. Autor brasileiro consagrado, de 32 livros, muito homenageado e premiado, Ignácio de Loyola Brandão, 73 anos, reconheceu nesta quarta-feira, no Congresso de Leitura do Brasil (Cole), que ocorre na Unicamp até sexta-feira, o grande valor dos professores do ensino fundamental na carreira que abraçou e da qual afirma que não abdica. “Num exame de Matemática, em que eu precisava tirar 9,7, meu professor me deu 10, mesmo depois de eu colocar uma fórmula esdrúxula no quadro negro. Disse que aquele delírio meu era fantástico e me impulsionou: ‘vai, Ignácio, que o seu mundo é o da fantasia’”.
Suas reminiscências foram muitas e tomaram conta de sua fala. Praticamente não abordou a sua formação superior e disse que até hoje visita duas mestras de português de sua infância: dona Lurdes e dona Rute, ambas de Araraquara. Contou que aprendeu com elas a reescrever histórias e com a conduta de seu pai, um ferroviário, que amava a leitura e que tinha, na década de 40, uma biblioteca de mil exemplares. Observava o pai sempre, principalmente as suas expressões, ora de tristeza e ora de alegria. As leituras do pai contribuíram para que o menino Ignácio aprendesse o que era o drama e a felicidade da ficção.
“Eu era problemático, feio e pobre. Sentava-me nas últimas carteiras. Não conseguia chamar a atenção nem pela beleza, nem pela vestimenta. Mas naquele dia decidi minha vida. Não tendo o amor das moças, eu me apaixonei pela Branca de Neve”, disparou. E foi justamente este conto de fadas que deu crédito ao menino. Tendo reescrito aquela história, em que demonstrou detestar os sete anões, por escravizarem a Branca de Neve e lhes atribuírem inúmeras tarefas, apimentou a trama fazendo da Branca de Neve a protagonista que, ao servir o jantar, envenenou-os com cogumelos. Vingou-se dos anões e Ignácio também. Seu trabalho foi julgado pela classe e, daquele dia em diante, passou a ser chamado do menino que matou os anões.
A literatura, de acordo com o escritor, proporciona então o raro de prazer de se vingar do meio para resolver conflitos interiores e fraquezas. “É um dos recursos mais adequados para isso. O dia em que os alunos entenderem esta vingança eles terão prazer em resgatar a escrita bem como a leitura”, revelou. “Foi assim que Dom Quixote, já com 400 anos, fez e é o que fazem os escritores.”
A prática de julgar trabalhos, colocando os alunos na condição de juízes, colabora para o desenvolvimento do seu raciocínio, juntamente com a prática de discussão de pontos que devem ser melhorados ou que foram muito bem-colocados. “Meus antigos professores olhavam para nós. Colocavam filmes para assistirmos e daí explicavam tópicos da História, para nós obscuros. Colocavam "Os dez mandamentos" para explicar o Egito antigo e assim por diante”, recordou.
A relação de Ignácio com as palavras começou cedo, tão logo percebeu que era assim que as pessoas se comunicavam melhor. Ouviu, por exemplo, a palavra "crossidura" e foi tentar compreender o que era. Recorreu ao dicionário. Tratava-se de um rato almiscarado de cerca de 30 dentes. Depois procurou "catadupa", "catalepsia" e outras. Foi um momento importante para ele, pois daí em diante percebeu que de fato o conhecimento de novas palavras teriam o poder de aproximá-lo mais do mundo.
A professora de português propunha uma lista de termos novos, com significados. Ignácio era o melhor nisso. Os colegas passaram a pedir sua ajuda e, quando percebeu que estava trabalhando em dobro, achou um jeito de ampliar seu negócio, desta vez com moeda de troca. Como escrevia para o filho do dono da sorveteria, pedia em troco sorvetes e, para outros, pedia outras poucas besteiras. “Fato é que já estava me profissionalizando”, brincou. O trabalho deu origem ao livro O Menino que Vendia Palavras, que foi Prêmio Jabuti 2008, na modalidade de ficção.
Outra grande descoberta, relatou, foi o gostoso hábito de escrever fatos triviais em um caderninho de anotações, prática sugerida por um professor de Química. De lá proveem muitas das suas crônicas, escritas quinzenalmente, às sextas-feiras para o Jornal O Estado de S. Paulo. “A ordem é ter olhos abertos e ouvidos atentos”, ensinou. Percebeu ainda que ter textos econômicos como os de Graciliano Ramos e Ernest Hemingway eram os seus ideais. “Nada de conversa de comadre”, lembrava-se da dica de um professor, que lidava com a vida, não tinha carreira acadêmica, mas que observava muitos os alunos.
Ignácio falou da angústia de batizar um dado personagem, sentimento também compartilhado por outros escritores. “Na minha geração os nomes dos santos faziam sucesso e agora é a vez dos nomes de artistas de novelas”, disse. Comentou a dificuldade de escrever sob pressão e a necessidade de entrar no comprimento da onda. “Não é preciso inventar, já que a realidade fornece elementos suficientes para este exercício. A crônica está dentro de casa. Alguma coisa se passa na vida subterrânea do Brasil e tenho muita esperança neste país”, testemunhou.
O escritor encerrou lembrando que há dias, ao andar na rua, não conseguiu evitar um encontro com uma senhora de cerca de 60 anos, cabelos brancos e muito elegante. “Vou, não vou. Fiquei um bom tempo diante daquela senhora, tentando retomar o caminho. Olhei. Sorri. Ela me agradeceu e devolveu: "obrigado, senhor, por ter dançado comigo nesta manhã'”, concluiu. A seguir, Ignácio se dirigiu à multidão que acompanhava a sua palestra no Cole: "obrigado por vocês terem dançado comigo nesta manhã!" O público com certeza entendeu o sentido da crônica que acabava de ser contada.
Biografia - Inácio de Loyola Lopes Brandão nasceu em Araraquara em 1936. Foi crítico de cinema antes de mudar-se para São Paulo, aos 16 anos, para estudar direito. Empregou-se como repórter e colunista de cinema do jornal Última Hora. Em 1965 lançou sua primeira obra, Depois do sol, volume de contos que enfocam a vida noturna da cidade de São Paulo. Três anos depois, publicou Bebel que a cidade comeu, romance sobre o suicídio de uma bailarina na década de 1960. A história foi filmada em 1968 por Maurice Capovilla com o título de Bebel, garota de programa. Em 1969 escreveu Zero, de linguagem quase experimental, retrato lúcido e amargo de um período de repressão política. Recusado sucessivamente por editoras brasileiras, Zero teve uma tradução italiana lançada em 1974 e, devido ao sucesso internacional, foi editado no Brasil no ano seguinte e logo proibido. Foi liberado somente em 1979. Outros romances importantes foram Dentes ao sol (1976) e Não verás país nenhum (1982), que descreve a dura realidade de um Brasil devastado por uma tecnologia predatória e politicamente opressiva.
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